segunda-feira, 10 de março de 2014

Das telonas para as telinhas - a migração do cinema para TV





A construção de um personagem como o de Walter White, de “Breaking Bad”, só foi possível porque precisou de cinco temporadas e 62 episódios para se desenvolver. O exercício metafórico de humor feito, com excelência, nos melhores momentos de “Community” seria impossível em um único filme de comédia. O retrato de uma época como o feito por “Mad Men” seria insuficiente em um filme de duas horas. Ameaçada de extinção há alguns anos, hoje é a TV o refúgio da liberdade criativa e do exercício de linguagem que o cinema, muitas vezes, parece incapaz de comportar.




[caption id="attachment_389" align="aligncenter" width="300"]Community Elenco da série Community.[/caption]

No meio do século passado, o caminho natural dos profissionais do audiovisual era migrar da televisão para o cinema. Foi assim com Spielberg, Scorsese, Hitchcock e David Lynch, que trouxeram autoria para um cinema em crise financeira e engessado pelas vontades de estúdios e produtores.


Hoje, o caminho parece ser inverso. Enquanto a maior parte do cinema hollywoodiano investe em superproduções rasas e repetitivas, é a TV que atrai histórias inventivas, tramas complexas e personagens ricos, como é o caso do professor de química, Walter White, que descobre que está com um câncer no pulmão e resolve fabricar metanfetamina.




[caption id="attachment_390" align="aligncenter" width="384"]Bryan Cranston como Walter White no episódio piloto de Breaking Bad Bryan Cranston como Walter White no episódio piloto de Breaking Bad. (Divulgação AMC)[/caption]

Claro que grandes histórias ainda serão contadas em duas horas e exibidas em grandes telas nas salas escuras e que, mesmo em Hollywood, ainda existem grandes profissionais autorais dedicados ao ofício da sétima arte. Mas é tema interessante de reflexão perceber que grandes sucessos do cinema voltaram como séries de TV.


Se, até então, era comum escutar a expressão: “filme baseado na série de TV”, a tendência agora é exatamente o contrário. E não são apenas as histórias que estão migrando de um veículo para outro, mas os profissionais também. Kevin Bacon, que foi Ren McCormickb em "Footloose", é agora o agente Ryan Hardy de "The Following"; Kevin Spacey, foi Roger Verbal Kint de "Os Suspeitos", agora é o Deputado Francis J. Underwood em "House of Cards"; Glenn Close, que interpretou a esquizofrênica Alex Forrest de "Atração Fatal", agora é a advogada Patty Hewes em "Damages"; Alec Baldwin, agora é o controlador executivo da Rede NBC, Jack Donaghy em "30 Rock", mas antes foi Shelly Kaplow em "The Cooler  - Quebrando a Banca"; a veterena Maggie Smith, que foi a professora Jean Brodie em "Primavera de uma Solteirona" de 1969, agora encarna a Condessa Violet Crawley em "Downton Abbey"; Robin Williams, que já foi Sean Maguire em "Gênio Indomável", agora é o reverenciado, premiado e excêntrico publicitário Simon Roberts, na estreante sitcom "The Crazy Ones"; premiada com um Oscar por "Blue Sky" de 1994, Jessica Lange agora faz sucesso em American Horror Story, estes são apenas alguns exemplos de atores consolidados no cinema que foram para as telinhas.




[caption id="attachment_396" align="aligncenter" width="411"]Robin Williams e Sarah Michelle Gellar no seriado 'The Crazy Ones' Robin Williams e Sarah Michelle Gellar no seriado 'The Crazy Ones'[/caption]

Por trás de todo efeito artístico, há um fato mercadológico. A migração do cinema para a TV não acontece por decisão de um conselho artístico, mas simplesmente porque é um mercado em expansão, com mais facilidade em se financiar.


Enquanto um filme tem um mês de exibição para pagar seus investimentos e ainda gerar lucros, uma série tem os custos diluídos ao longo de temporadas e, como fica no ar durante anos, gera receita de publicidade e de lançamentos de produtos associados ao programa de televisão.


Além disso, a qualidade das atuais produções televisivas tem cativado um público crescente e qualificado. Em entrevista concedida durante uma homenagem que recebeu em Roma pela Acadêmia Americana, no final do ano passado, o cineasta italiano Bernardo Bertolucci se declarou desapontado com as atuais produções cinematográficas de Hollywood e um entusiasta das séries de TV. "Os filmes norte-americanos dos quais gosto atualmente não vêm dos estúdios, e sim das séries de TV, como ‘Mad Men’ e ‘Breaking Bad’, que têm direção de atores melhor que a da maioria dos filmes”. O diretor afirmou ainda: "Exceto por algumas poucas produções independentes, acho que tudo que vem de Hollywood é em geral triste. Isso me entristece muito.


Migração


Depois de “Hannibal” e “Bates Motel”, agora é a vez de “Ghost – Do Outro Lado da Vida”, sucesso da década de 1990, e “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polansky, virarem séries.


Se esta última ainda não tem previsão de exibição, “Ghost” será o primeiro projeto do recém reativado departamento de televisão dos estúdios Paramount. O episódio piloto foi encomendado ao roteirista Akiva Goldman, vencedor do Oscar por “Uma Mente Brilhante”.




[caption id="attachment_399" align="aligncenter" width="300"]Patrick Swayze e Demi Moore, em cena do filme 'Ghost - Do Outro Lado da Vida' de 1990 Patrick Swayze e Demi Moore, em cena do filme 'Ghost - Do Outro Lado da Vida' de 1990[/caption]

E “Hannibal”, série de TV baseada na obra do escritor Thomas Harris, autor de “O Silêncio dos Inocentes”, “Hannibal” e “Dragão Vermelho” (todos foram adaptados para o cinema), vai para a segunda temporada. O programa mostra o início do psiquiatra Hannibal Lecter, que ajuda o investigador Will Graham a identificar serial killers. O que Graham não sabe – mas o público, sim – é que seu parceiro é um criminoso.




[caption id="attachment_400" align="aligncenter" width="370"]Mads Mikkelsen é Hannibal Lecter. Mads Mikkelsen é Hannibal Lecter.[/caption]

Outra série de sucesso inspirada em cinema é “Bates Motel”, que segue em sua segunda temporada. A série conta a infância de Norman Bates, protagonista de “Psicose”, de Alfred Hitchcock, um dos maiores clássicos do suspense da história do cinema.


Por hoje é só pessoal, espero que tenham gostado do texto de hoje.


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