
Formado em jornalismo pela PUC-SP, Marcelo Medeiros é correspondente internacional em Nova York pela RedeTV!, canal no qual trabalha desde 2007.
Premiado jornalista, em 2009, ganhou o prêmio CET de Jornalismo, da Comissão Européia de Turismo, por uma série de reportagens sobre Salzburgo, na Áustria. Antes de sua mudar para os Estados Unidos foi responsável por reportagens mundo afora em países como o Haiti (eleições 2010) e África do Sul (Copa do Mundo 2010).
Alan Ank: Dentre todas as áreas do jornalismo, por que o televisivo?
Marcelo Medeiros: Quando fui fazer jornalismo, queria ser repórter de impresso. Só na metade da faculdade bateu a vontade de ir para a televisão. As possibilidades deste meio me fascinaram! Na TV, é preciso ir além de uma boa história e um bom texto. É preciso também unir belas imagens, uma edição afinada, uma narração certa, só para citar alguns itens, para termos uma reportagem de qualidade.
AA: Jornalista bastante experiente, essa sempre foi sua primeira opção profissional?
MM: Só pensei em fazer jornalismo quando faltava um mês para me inscrever no vestibular. Sempre gostei da área de biológicas, queria ser médico, biólogo. Mas nenhuma destas profissões me encantava plenamente. O que me chamou a atenção no jornalismo foi a possibilidade de dividir informações, conhecimentos com outras pessoas. Acho que foi isso o que busquei na profissão: uma maneira de passar aos outros um pouco da minha vivência, daquilo com que eu tenho contato.
AA: Considera que algum estágio em especial contribui mais para sua formação ou todos tiveram o mesmo peso no início da sua carreira?
MM: Fiz dois estágios: em um canal fechado, de SP, e no jornal O Estado de S. Paulo. Os dois foram importantes. No primeiro, pude treinar a linguagem da TV, entrar em contato com esta rotina. E em uma empresa pequena, a possibilidade de aprendizado para quem está começando é imensa. Já no Estadão, passei por diversas editorias e pude acompanhar como funciona um grande veículo de comunicação.
AA: Como é o seu dia-a-dia como correspondente? A vida tem sido glamourosa como muitas pessoas possam pensar?
MM: Eu já começo o dia atrasado (risos). Como tenho o fuso horário contra mim, preciso correr atrás das pautas desde cedo. Acordo e, enquanto tomo café-da-manhã, já leio os principais jornais daqui e assisto aos noticiários. Uma vez definida a pauta com o meu editor, em SP, vou atrás do que for necessário: informações, entrevistas, imagens. A principal diferença para o meu trabalho anterior, em SP, é que aqui eu faço tudo sozinho, ou seja, eu sou toda a redação de NY! Sobre o glamour, a profissão de jornalista, em si, não é glamourosa. É muita correria, bastante responsabilidade. Enfrentamos frio ou calor extremos, chuva, neve, horas sem se alimentar direito, tudo por causa da notícia. A diferença, em Nova York, é que faço tudo isso em um cenário cinematográfico, digamos. Corro pelas ruas de Manhattan, enfrento chuva ou neve no Central Park. Talvez daí as pessoas imaginarem que a vida é glamourosa.
AA: Ainda está se adaptando a vida nos Estados Unidos em questões culturais, como a alimentação?
MM: Me adaptei bem à vida aqui. Acho que nós, brasileiros, de certa maneira, somos bastante expostos à cultura americana, o que torna esta mudança para cá algo mais fácil. Com relação à alimentação, adoro cozinhar, então termino fazendo boa parte das refeições em casa mesmo. Fora isso, foi bem interessante acompanhar de perto alguns aspectos da cultura daqui, como a tradição do Halloween ou do Dia de Ação de Graças. Fui aos desfiles que ocorrem nestes dois dias, até arrisquei fazer um jantar de Ação de Graças. É importante participar disso para entender o modo de pensar dos americanos.
AA: Dentre os mais de 12 anos de sua carreira qual reportagem ou momento que mais te marcou?
MM: Foram vários momentos marcantes. Cobrir a Copa do Mundo de 2010 talvez tenha sido o principal. Nunca havia pensado em participar de uma cobertura como esta! E, hoje, consigo ver como isto foi importante não só na minha carreira, mas também como experiência de vida. Durante 50 dias, pude ao mesmo tempo acompanhar o maior evento esportivo do mundo e observar a realidade de um país culturalmente riquíssimo, como é a África do Sul. Lá consegui, inclusive, sentir o gostinho de como é ser um correspondente internacional. Foi um excelente preparo para o atual desafio que estou vivendo.
AA: Alguma reportagem que gostaria de não ter feito?
MM: Não me arrependo de nenhuma reportagem que tenha feito. Mas sempre tem aquelas que não gostaria que tivessem ocorrido, quero dizer, que a situação não tivesse acontecido. No ano passado, cobri as enchentes na região serrana do Rio de Janeiro. É claro que ninguém tem o sonho de fazer uma cobertura desta. Foram dias em que acompanhei de perto o sofrimento de diversas famílias, estive em locais totalmente irreconhecíveis. Tudo isso traz muita tristeza, não tem como deixar de se envolver. Mas, nessa hora fica mais claro o papel do jornalista diante da sociedade.
AA: Alguma que queira fazer?
MM: Há várias que eu ainda gostaria de fazer. Este ano, por exemplo, tem a cobertura das eleições aqui nos EUA, será um grande desafio profissional. Além de outras reportagens no próprio Brasil mesmo. Já tive a oportunidade de gravar em diversos cantos do país, mas ainda há muitos locais que gostaria de explorar. No dia em que eu disser que não tem mais nenhuma reportagem que eu gostaria de fazer, será o dia da minha aposentadoria (risos).
AA: Discute-se muito sobre a obrigatoriedade ou não do diploma para jornalistas. Qual a sua opinião?
MM: Acredito que a profissão, pela carga de responsabilidade que tem, pede um preparo específico, no caso, a graduação. Quem pensa que a faculdade serve para ensinar técnicas está enganado. Nos quatro anos de curso, tive aulas de sociologia, política, filosofia, teologia, ética, economia, comunicação, enfim, diversas disciplinas que ajudam o jovem que acabou de sair do colégio a ver e entender o mundo com outros olhos. Não penso que qualquer pessoa, sem um preparo mínimo, esteja pronta para enfrentar esta maratona que é a nossa rotina.
AA: O Blog dos Jornalistas é acessado por estudantes de jornalismo de todo o Brasil. Algum conselho para dar a estes estudantes?
MM: Um conselho que eu daria é trabalhar sempre da maneira mais ética, responsável e criativa possível. Tentar ver o mundo com outros olhos, ir além do lugar comum, e colocar isso nas reportagens. E, por mais que nosso mercado de trabalho seja restrito e de certa maneira difícil, não desistir.
AA: Qual é o papel principal do jornalismo para a sociedade?
MM: Eu considero que o principal papel do jornalismo é manter a sociedade bem informada. Não acho que nós, jornalistas, somos formadores de opinião. Nosso dever é dar às pessoas informações suficientes e claras para que elas mesmas formem suas opiniões, e vejam o mundo com o seu próprio olhar.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
BJ entrevista o correspondente internacional Marcelo Medeiros
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10:02
Guilherme
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