A literatura, poética e/ou ficcional, assim como a música e o cinema, não é somente um componente da cultura, mas um modo para compreender e caracterizar um povo. No Brasil observa-se que além do baixo costume de leitura, há uma grande influência da produção literária estrangeira na preferência da população.
A última pesquisa referente à frequência de leitura do brasileiro foi realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) e encomendada pelo Instituto Pró-Livro. O levantamento ouviu 5.012 pessoas em 311 municípios de todo o país de 29 de novembro de 2007 a 14 de dezembro do mesmo ano, e concluiu que o brasileiro lê, em média, 4,7 livros ao ano. “É preciso que haja estímulos para a leitura, e que se leia o produto nacional. Eu vejo o seguinte na sala de aula: a maioria das crianças prefere ler os livros estrangeiros como Crepúsculo, Harry Potter, etc., enquanto escritores nacionais como Luis Fernando Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade e outros são lidos por poucos”, criticou a professora de português da Rede Estadual de Ensino, Ana Xavier.
Estrangeirização
A crítica da professora tem fundamento. Segundo a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e o Sindicato Nacional das Editoras de Livros (SNEL), em pesquisa divulgada em fevereiro de 2010 sobre a publicação de livros no Brasil, do total de 52.510 títulos publicados no país em 2009, 80% são de origem estrangeira, enquanto somente 20% são de autores nacionais. Segundo a Editora Abril, em 2010 a lista dos livros mais vendidos no Brasil demonstrava um amplo domínio da literatura estrangeira sobre a literatura brasileira: os estadunidenses William Young e Stephenie Meyer ocupavam o topo da lista, seguidos do brasileiro Chico Buarque em terceiro e do também estadunidense Dan Brown em quarto. Curiosamente, na mesma época, em Portugal, Chico Buarque ocupava posição melhor do que em seu próprio país de origem: era o segundo colocado entre os mais vendidos.
O fator histórico-cultural e a segregação mercadológica das editoras são dois dos muitos componentes que explicam esta “estrangeirização” da literatura luso-brasileira. O primeiro é definido ao situar as conseqüências sociais do golpe que instaurou a Ditadura Militar no Brasil em 1964. O governo militar brasileiro manteve forte relação com os Estados Unidos, que utilizou a sua influência no país de determinadas formas. Nesta época, houve uma riqueza de produção cultural nacional, através de músicos como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil com o movimento Tropicália, por exemplo, mas o governo proibiu a circulação das obras destes e de muitos outros cantores brasileiros através da censura. Além disto, importaram-se muitos bens de consumo dos Estados Unidos e investiu-se muito pouco na indústria nacional; desta forma, o povo brasileiro passou a associar, gradativamente, o produto estrangeiro como de boa qualidade e o nacional como de baixa qualidade e generalizou este pensamento para outros segmentos, devido à desvalorização da cultura durante este período. “Esta questão é antiga. A cultura brasileira é muito rica, mas dos anos 70 para cá existe um pensamento nacional de que o que é brasileiro é ruim e o que vem de fora é bom. No cinema este cenário vem melhorando, mas ainda existe”, declarou Renato Gonçalves, estudante de Cinema na Universidade Federal Fluminense.
O crescente domínio da cultura estadunidense no Brasil nos últimos anos contrasta com a queda de influência da cultura portuguesa. Uma vez que o Brasil está histórica e culturalmente ligado a Portugal, este declínio demonstra que há rejeição e estranhamento às produções lusitanas. “Desde a Independência (do país) nós perdemos o vínculo com a cultura portuguesa, e com a literatura de lá também. Além disso, a própria mídia daqui dá mais destaque ao que acontece em outros países e deixa Portugal pra segundo plano. Quase não ouvimos falar deles por aqui”, frisou a universitária Carolina Matias, estudante de Comunicação Social na Universidade de Brasília.
Outro fator predominante é a dificuldade de publicação e circulação de novos livros no Brasil em grande escala. Em pesquisa realizada nas livrarias Siciliano e Saraiva, foi possível observar que editoras famosas como Companhia das Letras, Globo e Record dominam as vendas de vários títulos pertencentes a um mesmo autor. Desta forma, estas editorias acabam por dificultar o processo de renovação de autores e livros, travando a divulgação e popularização da produção literária nacional proveniente de escritores iniciantes e não famosos.
por Vinicius Damazio
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