Hoje falo de um livro que pode ser considerado um clássico: A Revolução dos Bichos, de George Orwell. Este foi publicado há mais de sessenta anos, mas continua fazendo muito sucesso. E não é por menos.
Fiquei interessada quando vi o título em uma livraria na Avenida Paulista. Já havia ouvido falar da obra, mas não parei para saber sobre o que se tratava. A palavra “bichos” me chamou muita atenção. Sou louca por animais, e de repente me vi em pé na livraria, já passando pelo segundo capítulo. O que mais me deixou instigada à leitura foi saber que o livro na verdade tinha relação com a Revolução Russa, um tema que eu também idolatro. Fiquei me perguntando como aquele autor faria essa analogia, e não pensei duas vezes, comprei o livro e corri pra casa pra começar a leitura (o que não aconteceu, pois comecei a ler na rua, no metrô e no ônibus).
Colocando de lado um pouco a história do que foi a Revolução, vou contar um pouco sobre a fábula. A trama se passa na Granja Solar, localizada na região da Inglaterra, onde mora o Sr. e Sra. Jones. O lugar abriga diversos animais, entre eles o porco Major, o cavalo Sansão, a égua Quitéria, o burro Benjamim e outros animais, como cachorros, ovelhas e aves. Certo dia, o velho porco Major, que já está com pouco mais de doze anos, resolver fazer uma reunião com todos os bichos para contar um sonho que teve na noite passada.
No encontro, Major diz que logo vai morrer, mas que antes, precisa transmitir uma mensagem muito importante. Segundo ele, “nossa vida é miserável, trabalhosa e cruel. Nascemos, recebemos o mínimo alimento necessário para continuar respirando, e os que podem trabalhar são exigidos até a última parcela de suas forças (...). nenhum animal na Inglaterra é livre. A vida dos animais é feita de miséria e escravidão”. Nesse momento minha vontade foi de estar lá na tal reunião. Pode parecer absurdo, mas concordo plenamente que os animais, principalmente os do campo, são muito mal tratados pelos seus donos, que os usam como ferramentas. Major enfatiza que o problema se resume somente em uma palavra: homem, o único inimigo dos bichos.
Mas a reunião prossegue não somente com teorias. Major conclui que a hora de colocar todo esse ódio em prática tinha chegado. “Retire-se da cena o homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre”.
O porco então diz que o primeiro passo é se livrar do homem, e assim poderiam ser ricos e livres. Para isso, trabalhariam dia e noite para derrubar a raça. Por fim, e o mais esperado, Major sugere uma solução para o grave problema: “Rebelião! (...) O homem não busca interesses que não os dele próprio. Que haja entre nós, animais, uma perfeita unidade, uma perfeita camaradagem na luta. Todos os homens são inimigos, todos os animais são camaradas”.
Não tem como não achar fantástica a ideia do autor. Quem um dia imaginou uma rebelião vinda dos nossos próprios animais? E justamente por ser tão imprevisível, conseguimos ver quão óbvia ela é devido às condições que alguns animais são submetidos. Infelizmente, não existe racionalidade para tanto, somente em fábulas como a de George.
Ah, esqueci de contar do sonho do Major. Ele disse que sonhou em como seria o mundo com o desaparecimento do homem, e veio em sua mente uma canção, chamada “Bichos da Inglaterra”.
Trecho da canção:
“Mais hoje, mais amanhã,
O tirano vem ao chão,
E os campos da Inglaterra
Só os bichos pisarão.
(...)
Lindos campos da Inglaterra,
Ribeiros com águas puras,
Brisas leves circulando
Liberdade nas alturas.”
Após a morte de Major, suas previsões se concretizaram. Restava agora aos animais decidirem continuar ou não com a idéia da rebelião. Muitos tinham medo, achavam que passariam fome. Logo surgiram novos porcos, entre eles, Napoleão, Bola-de-Neve e Garganta. Os três instauraram o que se chamava de “Animalismo”, que debatiam em diversas reuniões no celeiro. Não tardou para a rebelião acontecer. Jones estava bêbado no sofá quando ouviu um estrondo. Correu para ver com mais quatro peões, e não acreditou: os animais estavam se revoltando contra ele, e por fim conseguindo o que eles tanto queriam (colocar Jones para fora da Granja).
A partir daí, o começa a disputa de interesses entre Bola-de-Neve e Napoleão. Os dois líderes não conseguem se entender em nenhum assunto. Tudo o que um afirma, o outro discorda. Contudo, as coisas estavam melhores para o lado de Bola-de-Neve (Trotsky), que após idéias inovadoras e ambiciosas foi expulso da Granja. É aí que entra Lenin, quero dizer, Napoleão, em uma nova fase onde os animais ainda eram iguais, mas alguns eram mais do que outros. Com o tempo, uma onda de injustiças e desigualdades paira pela granja. Os porcos mudam as leis, começam a beber, enfim, a revolução do Major é completamente distorcida por uns sabichões alucinados com o poder.
O livro termina com o cúmulo do cúmulo (se é que existe isso). Os porcos além de se apoderarem da casa dos humanos, atitude extremamente repudiada pelas leis primordiais, dormem em suas camas, assistem televisão, bebem, fumam, e, pasmem: mantém contato direto com o homem. A última cena chama muita atenção: porcos e humanos jogando baralho, com os pobres coitados dos animais boicotados vendo a situação toda pela janela, do lado de fora da casa. Triste. Confesso que fiquei esperando um final diferente, com os animais virando a mesa, e falando “Sim, nós somos todos iguais!!!”, mas o fato é que o livro não é de historinhas muito menos conta com final feliz. É a reprodução do que foi aquela sangrenta revolução que culminou na morte de inocentes e incapazes de se defender.
O livro não acaba aí. A fábula acaba. Mas a história continua, contada pelo próprio autor, do que foi aquele ano de 1917. Pelas palavras de George, a assimilação com a fábula fica mais coerente e perceptível. O jornalista ainda escreveu uma carta para os leitores ucranianos que estavam na guerra naquela época, como se fosse um alento para aqueles difíceis momentos que enfrentavam e viriam a enfrentar. A carta é anexada na íntegra no final do livro.
Por fim, recomendo a leitura, principalmente para quem quer saber um pouco mais sobre a revolução. Embora a obra tenha cunho ideológico e próprio do autor, a leitura também pode ser recomendada para crianças, que se encantarão com a história dos animais, despidas de sentimentos não muito agradáveis, que nós, adultos, cismamos em não largar de mão. Mais do que isso, a criança aprende a respeitar seus amigos, suas diferenças, e a não querer passar por cima dos outros. Não sei se é muita ousadia, mas posso até considerar um livro didático. Mas não deixem as crianças lerem além da historinha. Pelo menos por enquanto.
por Fernanda Lima
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